E assim, Arthur jazia enfim com a cabeça em meu colo,
vendo-me não como irmã, amante ou inimiga, mas apenas como maga, sacerdotisa,
Senhora do Lago; descansou, portanto no peito da Grande Mãe, de onde nasceu, e
para quem, como todos os homens, tem a finalidade de voltar.
E talvez – enquanto eu guiava a barca que o levava, desta
vez não para a ilha dos padres, mas para a verdadeira ilha sagrada no mundo das
trevas que fica além do nosso, para a ilha de Avalon, aonde, agora, poucos,
além de mim, poderiam ir – ele estivesse arrependido da inimizade surgida entre
nós.(...)
A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada
que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa
própria vontade e de nossos pensamentos, e, talvez, no fim, chegaremos ou à
sagrada ilha da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã
e Inferno e danação...Mas talvez eu seja injusta com eles. Até mesmo a Senhora
do Lago, que odiava a batina do padre tanto quanto teria odiado a serpente
venenosa, e com boas razões, censurou-me certa vez por falar mal do deus deles.
“Todos os deuses são um deus”, disse ela, então como já
dissera muitas vezes antes, e como eu repeti para as minhas noviças inúmeras
vezes, e como toda sacerdotisa, depois de mim, há de dizer novamente, “e todas
as deusas são uma deusa, e há apenas um iniciador. E cada homem a sua verdade,
e Deus com ela”.
Assim, talvez a verdade se situe em algum ponto entre o
caminho para Glastonbury, a ilha dos padres, e o caminho de Avalon, perdido
para sempre nas brumas do mar do Verão.
Mas esta é a minha verdade; eu, que sou Morgana, conto-vos
estas coisas, Morgana que em tempos mais recentes foi chamada Morgana, a Fada.
( Marion Zimmer Bradley, in As Brumas de Avalon)

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